encaixe-se
A mulher não gostava de animais. Nenhum, gato, cachorro, periquito, papagaio. Domésticos, selvagens, aquáticos.
Via fotos na aula de biologia com indiferença. Conversava com as amigas que acordavam mais cedo para passear com seus cães com desprezo.
Passou a infância toda respondendo que não era traumatizada. A ponto de se questionar se poderia ter esquecido um trauma.
Na adolescência fez regressão, terapia na igreja e consultou um psiquiatra. Buscava entender se era de outras vidas. Explicava que não era medo.
Uma analista na vida adulta associou ao escancaro da finitude. Fortes, saudáveis, pertencentes a natureza e ainda vão morrer um dia. Interessante, a menina pensava. Mas não tenho pavor do fim, até gosto dessa característica da vida, é o que nos torna presentes.
Começou a achar que poderia ser uma psicopata. Investigando, perguntou pra sua mãe se matava insetos na infância e se demonstrava remorso. A genitora foi categórica na resposta: nunca os matou, não gostava nem de conviver com os bichos, se aparecia um, você nos chamava. Nem um mosquito? Uma barata, nada? Não. Não era fria a ponto de matar, era congelada no ponto do desgosto.
Tentou reiki e constelação, terapia cognitivo comportamental e até um coach de performance. Este último, ela abandonou na primeira sessão em que ouviu que para ter sucesso profissional, precisava-se fazer como os reis da selva na lei do mais forte.
Passou uma vida na tentativa de compreensão. Todos achavam bonitinho fotos de coala e memes de gatinho, tinha que ter algo de errado com ela. Desesperada para entender, seu desconforto era maior com a inadequação do que com os próprios bichos.
Foi fazer tratamento de choque, um intensivo de convivência que tava na moda no tiktok. A mediadora do exercício juntava técnicas de mindfulness com referências do Capitão Nascimento. Persistiu. Foram 5 dias na casa de uma amiga com um vira-lata e depois, estaria curada. Não chamou pra brincar uma única vez, as vezes esquecia que ele estava lá, se não fosse sua amiga para alimentar… Em outras lembrava e se irritava com o cheiro de pelo molhado transbordando pela casa, os latidos quando abriam a porta do elevador. “Como que alguém chama isso de companheiro?”
Foi à China buscar uma medicina alternativa. Índia, Egito e Noruega. Se consultou com os melhores médicos das melhores clínicas, aprendeu sobre a sacralidade dos animais para algumas culturas e até acreditou que poderíamos retornar como bichos. Sem autonomia, independência, comunicação avançada ou capacidade de pintar um quadro. Que horror.
Perdia as esperanças quando viu uma criança sentada na rua com um filhote de cachorro. Animada e acostumada em ser o centro das atenções, ela pergunta se a nossa protagonista não quer fazer carinho no bicho. Prontamente responde que não, não gosta de animais. Já não tenta fingir, e assume que a menina vai chorar, espernear, achar estranho, patético. É a única pessoa do mundo que não tem o coração amolecido por uma mini criatura de marias chiquinhas segurando outra que boceja e tem pelos brancos e macios. É isso, bateu no peito. Se quiser xingar, que xingue. Tragam as algemas.
A menina que não devia ter mais de sete anos, com os cabelos pretos e grossos e uma carinha de quem ganha no jogo de botão contra os meninos mais velhos, respirou. Olhou no fundo dos seus olhos, e disse:
- Tudo bem, cada um gosta do que quer. Minha mãe diz que você não é todo mundo.
E saiu saltitante com o filhote no colo, tirando meleca.

